sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Casinha na relva (12/02/2016)

     É incrível como a cor verde é tão desprezada pela humanidade. Realmente não entendo. Uma cor tão bonita, tão elegante, tão calma e gostosa de se ver, de usar. Até entre as cores, formalmente falando, o verde é considerado uma cor fria, secundária e não possui os atributos vivos do vermelho, do amarelo e do azul, ou melhor, do sangue, do ouro e dos olhos de uma dama caucasiana.
     Vocês já repararam que nas obras realistas, tais como as pinturas de Coubert, o verde é tão pouco utilizado? Exemplo disso está na obra "Mulheres peneirando trigo". Vê-se duas mulheres, uma mais simples que a outra no que diz respeito à vestimenta e até mesmo na maneira em que são representadas. Nota-se o esforço braçal exigido para que aqueles grãos sejam peneirados da maneira mais refinada e própria para consumo, o seu pão de cada dia. A palha espalhada pelo chão dá a entender que as personagens estão numa espécie de celeiro, a casa dos animais de tração. Agora pensem comigo, qual a utilidade de um "animal de tração"? A resposta mais óbvia seria o transporte de carga, incluindo pessoas, outros animais, alimentos... sim, alimentos. O que essas mulheres estão fazendo não se diferencia muito do que os animais de carga fazem, afinal o alimento que ganham no fim do seu esforço físico são praticamente as sobras do que elas conseguem produzir. Aquele trigo não é apenas para consumo próprio. Como seria se cada pessoa que estivesse interessada em comer o alimento que produz do próprio esforço assim o fizesse... essas mulheres, além de trabalhadoras, são mães, irmãs, esposas, enfim, são mulheres.
     Um detalhe importante: onde está o verde nessa pintura? E o mais intrigante, porque o vermelho e o amarelo estão tão presentes nessa pintura, mesmo sendo cores vivas, chamativas? Realmente isso nos causa nós na cabeça, por isso amo tanto a arte. Claro que, nesse mundo tão grande, tão "sem porteira" e, paradoxalmente, tão pequeno, não devemos falar de cores apenas no tema restrito da arte, isso inclui todos os seus tipos, desde a rupestre ao cinema 4, 5, 6, 7, 8, infinitos "Ds". Agora mesmo, enquanto escrevo esse texto, miro uma garrafa cheia de água com a pigmentação verde no plástico. Uma regra: quer verde? Vá procurar!
     Melhor, se você quiser verde, vá viver o verde. Mas isso é tão complicado hoje em dia. Não é de hoje esse papo de que a humanidade se desvencilhou do verde na medida em que procurou utilizar o verde de todas as formas possíveis... complexo, não? Entretanto, mesmo nesse mundo tão cinza, melhor, tão metálico, é possível viver o verde.
     Para vivê-lo, basta procurar um solo verde, afinal uma casa precisa de um solo para se assentar. Quando encontrar, repare que o solo se prepara para te receber, mesmo ele não tendo a mínima ideia do que você fará com ele. No seu primeiro passo, perceba o movimento que os dedos do solo faz para abraçar a sola dos seus pés. Cada passo que você der confirmará a complacência desse solo quanto à sua existência. Você pode pisar da maneira que você quiser: com tênis, sem tênis, com chinelo de dedo, sem chinelo de dedo, com sapatilha, sem sapatilha, com botas, sem botas. Enfim, pise e caminhe, levanta-te e anda! Viva!
     Te parece estranho? Exagerado? Você não se sente à vontade em um lugar assim? Bom, acostume-se, afinal esse lugar será a sua futura casa. Caso ainda se sinta desconfortável, um exercício: deite-se nesse solo, olhe para o céu, o azul incompreensível, e aos poucos feche suas pálpebras. Na escuridão iluminada, abra os seus ouvidos assim com as flores desabrocham. Não abra sua boca, apenas ouça, alguém quer falar com você.
     A voz que vem não consiste em fonemas, e pode ser que não tenha sentido. Mas mesmo assim, escute. Você sentirá alguém tocando em sua pele. Não são as mãos humanas, e sim algo infinitamente superior, por isso respeite, a sua melhor reverência é nessa posição de escuta. A sensação é parecida com um mergulho em águas límpidas, a diferença é que você consegue respirar. Aos poucos você começará a entender o que aquela voz queria te dizer. O entendimento vem pelo cheiro, pela sensação do toque, pela umidade que aos poucos se mistura ao cheiro e traz uma sensação completamente diferente. Sim, a voz era do verde.
Não há nada mais acolhedor do que essa experiência. O acolhimento evolui e toma forma física. Do solo verde sobem as estacas, as vigas, os pilares. A geometria formada é simplesmente perfeita. O vazio dos pilares é preenchido com barro, madeira, tijolos, concreto, aço, MDF. Você está entre esses espaços preenchidos, então quer ver o verde que lhe foi tapado.
     Uma abertura é feita à sua frente. Mas você quer apenas essa abertura à sua frente, não acima da sua cabeça. As madeiras sobem e formam um triângulo, por um motivo bem simples: você não quer se molhar.
     Você quer sair dessa sombra, dessa penumbra, e uma abertura é feita na sua frente, igualzinha ao seu tamanho. Com o tempo ela se torna maior, de acordo com o que vai entrar e querer sair depois. Assim, você sai e vê, em pé sobre aquele solo verde que te acolheu, a obra que você criou. Seja orgulhoso!

     Acontece que você que você quer dividir isso com alguém. Você se sente só. Não se preocupe, alguém veio. Pegue sua peneira. Peça para essa outra pessoa apanhar a peneira dela também. O trigo vos espera.

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