É
incrível como a cor verde é tão desprezada pela humanidade.
Realmente não entendo. Uma cor tão bonita, tão elegante, tão
calma e gostosa de se ver, de usar. Até entre as cores, formalmente
falando, o verde é considerado uma cor fria, secundária e não
possui os atributos vivos do vermelho, do amarelo e do azul, ou
melhor, do sangue, do ouro e dos olhos de uma dama caucasiana.
Vocês
já repararam que nas obras realistas, tais como as pinturas de
Coubert, o verde é tão pouco utilizado? Exemplo disso está na obra
"Mulheres peneirando trigo". Vê-se duas mulheres, uma mais
simples que a outra no que diz respeito à vestimenta e até mesmo na
maneira em que são representadas. Nota-se o esforço braçal exigido
para que aqueles grãos sejam peneirados da maneira mais refinada e
própria para consumo, o seu pão de cada dia. A palha espalhada pelo
chão dá a entender que as personagens estão numa espécie de
celeiro, a casa dos animais de tração. Agora pensem comigo, qual a
utilidade de um "animal de tração"? A resposta mais óbvia
seria o transporte de carga, incluindo pessoas, outros animais,
alimentos... sim, alimentos. O que essas mulheres estão fazendo não
se diferencia muito do que os animais de carga fazem, afinal o
alimento que ganham no fim do seu esforço físico são praticamente
as sobras do que elas conseguem produzir. Aquele trigo não é apenas
para consumo próprio. Como seria se cada pessoa que estivesse
interessada em comer o alimento que produz do próprio esforço assim
o fizesse... essas mulheres, além de trabalhadoras, são mães,
irmãs, esposas, enfim, são mulheres.
Um
detalhe importante: onde está o verde nessa pintura? E o mais
intrigante, porque o vermelho e o amarelo estão tão presentes nessa
pintura, mesmo sendo cores vivas, chamativas? Realmente isso nos
causa nós na cabeça, por isso amo tanto a arte. Claro que, nesse
mundo tão grande, tão "sem porteira" e, paradoxalmente,
tão pequeno, não devemos falar de cores apenas no tema restrito da
arte, isso inclui todos os seus tipos, desde a rupestre ao cinema 4,
5, 6, 7, 8, infinitos "Ds". Agora mesmo, enquanto escrevo
esse texto, miro uma garrafa cheia de água com a pigmentação verde
no plástico. Uma regra: quer verde? Vá procurar!
Melhor,
se você quiser verde, vá viver o verde. Mas isso é tão complicado
hoje em dia. Não é de hoje esse papo de que a humanidade se
desvencilhou do verde na medida em que procurou utilizar o verde de
todas as formas possíveis... complexo, não? Entretanto, mesmo nesse
mundo tão cinza, melhor, tão metálico, é possível viver o verde.
Para
vivê-lo, basta procurar um solo verde, afinal uma casa precisa de um
solo para se assentar. Quando encontrar, repare que o solo se prepara
para te receber, mesmo ele não tendo a mínima ideia do que você
fará com ele. No seu primeiro passo, perceba o movimento que os
dedos do solo faz para abraçar a sola dos seus pés. Cada passo que
você der confirmará a complacência desse solo quanto à sua
existência. Você pode pisar da maneira que você quiser: com tênis,
sem tênis, com chinelo de dedo, sem chinelo de dedo, com sapatilha,
sem sapatilha, com botas, sem botas. Enfim, pise e caminhe,
levanta-te e anda! Viva!
Te
parece estranho? Exagerado? Você não se sente à vontade em um
lugar assim? Bom, acostume-se, afinal esse lugar será a sua futura
casa. Caso ainda se sinta desconfortável, um exercício: deite-se
nesse solo, olhe para o céu, o azul incompreensível, e aos poucos
feche suas pálpebras. Na escuridão iluminada, abra os seus ouvidos
assim com as flores desabrocham. Não abra sua boca, apenas ouça,
alguém quer falar com você.
A voz
que vem não consiste em fonemas, e pode ser que não tenha sentido.
Mas mesmo assim, escute. Você sentirá alguém tocando em sua pele.
Não são as mãos humanas, e sim algo infinitamente superior, por
isso respeite, a sua melhor reverência é nessa posição de escuta.
A sensação é parecida com um mergulho em águas límpidas, a
diferença é que você consegue respirar. Aos poucos você começará
a entender o que aquela voz queria te dizer. O entendimento vem pelo
cheiro, pela sensação do toque, pela umidade que aos poucos se
mistura ao cheiro e traz uma sensação completamente diferente. Sim,
a voz era do verde.
Não há
nada mais acolhedor do que essa experiência. O acolhimento evolui e
toma forma física. Do solo verde sobem as estacas, as vigas, os
pilares. A geometria formada é simplesmente perfeita. O vazio dos
pilares é preenchido com barro, madeira, tijolos, concreto, aço,
MDF. Você está entre esses espaços preenchidos, então quer ver o
verde que lhe foi tapado.
Uma
abertura é feita à sua frente. Mas você quer apenas essa abertura
à sua frente, não acima da sua cabeça. As madeiras sobem e formam
um triângulo, por um motivo bem simples: você não quer se molhar.
Você
quer sair dessa sombra, dessa penumbra, e uma abertura é feita na
sua frente, igualzinha ao seu tamanho. Com o tempo ela se torna
maior, de acordo com o que vai entrar e querer sair depois. Assim,
você sai e vê, em pé sobre aquele solo verde que te acolheu, a
obra que você criou. Seja orgulhoso!
Acontece
que você que você quer dividir isso com alguém. Você se sente só.
Não se preocupe, alguém veio. Pegue sua peneira. Peça para essa
outra pessoa apanhar a peneira dela também. O trigo vos espera.

Nenhum comentário:
Postar um comentário