Nesse
lugar escuro, silencioso, ermo e perigoso, me ponho a pensar no dia
em que tudo começou a mudar. O engraçado é que não era nada
demais, apenas um pedaço de madeira preso a um tronco de árvore
avulso no meio de uma rodovia. Se não fosse pela atitude dos nossos
representantes em instalarem ciclovias entre essas rodovias, jamais
teria sido possível encontrar esse aviso. Afinal, por que não
deixar uma pista solitária como essa apenas para os carros que não
querem compromisso algum com este lugar, apenas passar e ir embora?
Bastavam os humanos no conforto dos seus bancos estofados e na
atenção mínima em seus volantes, mas alguém tinha que pensar
naqueles humanos que usam rodas finas, banquinho, capacete, roupa de
lycra e guidão. Completamente desnecessário!
Esses
governantes deveria entender, de uma vez por todas, que essas
mini-pistas para ciclistas, ou melhor, esses seres alternativos,
estão condenados a serem ocupadas por não-ciclistas, ou melhor,
pelos "cooperistas". Sim, exatamente isso que você pensou,
por aqueles que praticam cooper
como exercício físico. Eu sou um cooperista.
Não
é a minha intenção dizer que eu sou o saudável, uma pessoa que
obrigatoriamente deve estar de bem com a vida, nada disso. Eu sou
normal. Só acho que, para continuar tendo essa vida normal, que
tanto amo, não faz mal cuidar da saúde e tentar ficar de bem com a
vida, não é?
Todos
os dias eu acordo, tomo meu café da manhã após aquela escovada nos
dentes, ponho meu tênis próprio para corrida, amortecido, e faço o
caminho da ciclovia que tiveram a bondade de construir. Assim como
muitas práticas diárias, o cooper
começou a fazer parte do meu dia-a-dia, era quase obrigatório. Não,
é obrigatório! Mas não forço muito, sempre respeito as minhas
limitações. Acontece que, no dia em que tudo mudou, todo estava
diferente. Eu tinha acabado de acordar e...
Eu
tinha acabado de acordar e já estava estressado. É, a minha vida
nunca foi fácil, basta você passar um dia inteiro comigo para
entender o que estou dizendo. Desde cedo eu tive que trabalhar para
ajudar meu pai e minha mãe, que sofriam muito para garantir o nosso
pão de cada dia.
As
pessoas costumam associar a pobreza apenas com a falta de estudo.
Quero pedir a estas pessoas que revisem seus conceitos. Primeiro,
imagine uma cidade que não possui: saneamento básico, um sistema de
saúde eficaz, segurança adequada, pavimentação e mais de uma
escola. Agora eu te pergunto, como seria possível acreditar em uma
vida melhor sob essas condições? Se quiséssemos algo melhor, não
seria naquele lugar, por isso arrumamos nossos trapos e viemos para
cá, assim como muitos, para tentarmos um novo futuro.
Bem,
os anos se passaram, me tornei adulto, meus pais faleceram e os meus
irmãos e irmãs estão todos casados, enrolados. Mas eu não.
Assim
que colocamos o pé nessa cidade, eu pensei: "a minha vida tem
que mudar, tem que ser melhor". Pensei, mas não cheguei a
compartilhar esse pensamento com ninguém. Ainda novo, recém-chegado,
fui matriculado em uma escola pública próximo à casa que nos
acolheu sob a cobrança de aluguel equivalente a metade de um salário
mínimo. Acordava cedinho, tomava o meu café, tomava os cadernos
debaixo do braço e partia.
Nessa
luta eu jamais voltei atrás. A vida era difícil, mas isso nunca me
impediu de tirar notas boas. Me esforcei ao máximo para chegar onde
estou.
Mas
hoje estou estressado. A tarefa que me é obrigatória tem que ser
realizada muito cedo, quase no fim da madrugada e já não basta ter
que chegar em casa, todos os dias, à meia noite. Não dormi direito,
cansado demais. Enfim, levantei, tomei um café dormido e fui embora.
Pense no frio que me atacou assim que abri a janela! Quase congelei,
pelo menos os meus dedos quase congelaram. A sorte é que eu estava
agasalhado e com calça jeans.
Meu
destino naquela manhã era um lugar vazio. Devo esclarecer que o meu
trabalho não é tão valorizado, porém não consigo reclamar dele,
realmente gosto do que faço. Esse lugar não era tão longe da minha
casa, mas acabei falando em voz alta:
_Quer
saber? Eu vou caminhando, porque só assim eu destravo minhas pernas!
O
caminho não era tão perigoso. Para chegar, bastava sair do bloco
residencial e seguir pela calçada da rodovia. Enquanto caminho,
sempre presto atenção nos carros, mas isso causa certa agonia. Não
suporto a ideia de que o carro possa substituir pernas saudáveis, e
na medida em que os anos passam, mais carros são vendidos e mais
carros circulam. Então eu pergunto: "será que estamos nos
tornando preguiçosos?". Enfim, apesar de sentir essa agonia,
não me prendo muito a isso.
Pronto,
cheguei. Com a mochila em mãos, abri o zíper e retirei o material
necessário. Sobre uma placa de madeira, com algumas pinceladas
escrevi a frase que me mandaram registrar ali. Com a tinta
parcialmente seca (sim, ela seca muito rápido!), ergui a placa em um
tronco de árvore, apanhei o martelo e tirei um prego do bolso.
Martelei algumas vezes até a placa fixar.
Bem,
o trabalho estava feito. Hora de voltar para o local onde realizo as
atividades do trabalho. Ao chegar, uma pessoa estava desesperada, em
lágrimas, com um objeto bastante familiar em mãos.
Na
intenção de ajudar, aconselhei a essa pessoa:
_Se
acalme, por favor. Aqui é uma igreja, comporte-se...
A
pessoa me retornou o olhar, inchado e úmido. Respondeu:
_Mas
eu recebi a mensagem! Por favor, tente me entender...
Não
quis saber muito, logo perguntei que objeto era aquele. Não
acreditei no que vi. Perguntei:
_Onde
você arrumou isso?
Com
as mãos trêmulas e com a fala interrompida por soluços, essa
pessoa relatou que estava apenas praticando sua corrida diária.
Quando encontrou o objeto, imediatamente se lembrou da época em que
seus dias eram os melhores.
O
objeto era uma placa, a qual possuía um aviso muito simples:
"Jesus
de ama".
"Jesus
chorou".

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