sábado, 13 de fevereiro de 2016

O aviso da estrada (13/02/2016)

   
     Eu sei, pode parecer perigoso, mas assim aconteceu... Não foi nada demais, apenas um impulso, uma busca por aventura, adrenalina e todas as outras justificativas. Não se pode evitar quando o desafio quer ser maior que você, definitivamente não. Mas tudo bem, tudo ficará bem, basta ter paciência e confiar no aviso da estrada.
     Nesse lugar escuro, silencioso, ermo e perigoso, me ponho a pensar no dia em que tudo começou a mudar. O engraçado é que não era nada demais, apenas um pedaço de madeira preso a um tronco de árvore avulso no meio de uma rodovia. Se não fosse pela atitude dos nossos representantes em instalarem ciclovias entre essas rodovias, jamais teria sido possível encontrar esse aviso. Afinal, por que não deixar uma pista solitária como essa apenas para os carros que não querem compromisso algum com este lugar, apenas passar e ir embora? Bastavam os humanos no conforto dos seus bancos estofados e na atenção mínima em seus volantes, mas alguém tinha que pensar naqueles humanos que usam rodas finas, banquinho, capacete, roupa de lycra e guidão. Completamente desnecessário!
    Esses governantes deveria entender, de uma vez por todas, que essas mini-pistas para ciclistas, ou melhor, esses seres alternativos, estão condenados a serem ocupadas por não-ciclistas, ou melhor, pelos "cooperistas". Sim, exatamente isso que você pensou, por aqueles que praticam cooper como exercício físico. Eu sou um cooperista.
     Não é a minha intenção dizer que eu sou o saudável, uma pessoa que obrigatoriamente deve estar de bem com a vida, nada disso. Eu sou normal. Só acho que, para continuar tendo essa vida normal, que tanto amo, não faz mal cuidar da saúde e tentar ficar de bem com a vida, não é?
     Todos os dias eu acordo, tomo meu café da manhã após aquela escovada nos dentes, ponho meu tênis próprio para corrida, amortecido, e faço o caminho da ciclovia que tiveram a bondade de construir. Assim como muitas práticas diárias, o cooper começou a fazer parte do meu dia-a-dia, era quase obrigatório.         Não, é obrigatório! Mas não forço muito, sempre respeito as minhas limitações. Acontece que, no dia em que tudo mudou, todo estava diferente. Eu tinha acabado de acordar e...
     Eu tinha acabado de acordar e já estava estressado. É, a minha vida nunca foi fácil, basta você passar um dia inteiro comigo para entender o que estou dizendo. Desde cedo eu tive que trabalhar para ajudar meu pai e minha mãe, que sofriam muito para garantir o nosso pão de cada dia.
     As pessoas costumam associar a pobreza apenas com a falta de estudo. Quero pedir a estas pessoas que revisem seus conceitos. Primeiro, imagine uma cidade que não possui: saneamento básico, um sistema de saúde eficaz, segurança adequada, pavimentação e mais de uma escola. Agora eu te pergunto, como seria possível acreditar em uma vida melhor sob essas condições? Se quiséssemos algo melhor, não seria naquele lugar, por isso arrumamos nossos trapos e viemos para cá, assim como muitos, para tentarmos um novo futuro.
     Bem, os anos se passaram, me tornei adulto, meus pais faleceram e os meus irmãos e irmãs estão todos casados, enrolados. Mas eu não.
     Assim que colocamos o pé nessa cidade, eu pensei: "a minha vida tem que mudar, tem que ser melhor". Pensei, mas não cheguei a compartilhar esse pensamento com ninguém. Ainda novo, recém-chegado, fui matriculado em uma escola pública próximo à casa que nos acolheu sob a cobrança de aluguel equivalente a metade de um salário mínimo. Acordava cedinho, tomava o meu café, tomava os cadernos debaixo do braço e partia.
      Nessa luta eu jamais voltei atrás. A vida era difícil, mas isso nunca me impediu de tirar notas boas. Me esforcei ao máximo para chegar onde estou.
Mas hoje estou estressado. A tarefa que me é obrigatória tem que ser realizada muito cedo, quase no fim da madrugada e já não basta ter que chegar em casa, todos os dias, à meia noite. Não dormi direito, cansado demais. Enfim, levantei, tomei um café dormido e fui embora. Pense no frio que me atacou assim que abri a janela! Quase congelei, pelo menos os meus dedos quase congelaram. A sorte é que eu estava agasalhado e com calça jeans.
     Meu destino naquela manhã era um lugar vazio. Devo esclarecer que o meu trabalho não é tão valorizado, porém não consigo reclamar dele, realmente gosto do que faço. Esse lugar não era tão longe da minha casa, mas acabei falando em voz alta:

     _Quer saber? Eu vou caminhando, porque só assim eu destravo minhas pernas!

     O caminho não era tão perigoso. Para chegar, bastava sair do bloco residencial e seguir pela calçada da rodovia. Enquanto caminho, sempre presto atenção nos carros, mas isso causa certa agonia. Não suporto a ideia de que o carro possa substituir pernas saudáveis, e na medida em que os anos passam, mais carros são vendidos e mais carros circulam. Então eu pergunto: "será que estamos nos tornando preguiçosos?". Enfim, apesar de sentir essa agonia, não me prendo muito a isso.
     Pronto, cheguei. Com a mochila em mãos, abri o zíper e retirei o material necessário. Sobre uma placa de madeira, com algumas pinceladas escrevi a frase que me mandaram registrar ali. Com a tinta parcialmente seca (sim, ela seca muito rápido!), ergui a placa em um tronco de árvore, apanhei o martelo e tirei um prego do bolso. Martelei algumas vezes até a placa fixar.
    Bem, o trabalho estava feito. Hora de voltar para o local onde realizo as atividades do trabalho. Ao chegar, uma pessoa estava desesperada, em lágrimas, com um objeto bastante familiar em mãos.
     Na intenção de ajudar, aconselhei a essa pessoa:

     _Se acalme, por favor. Aqui é uma igreja, comporte-se...
     
     A pessoa me retornou o olhar, inchado e úmido. Respondeu:

     _Mas eu recebi a mensagem! Por favor, tente me entender...

     Não quis saber muito, logo perguntei que objeto era aquele. Não acreditei no que vi. Perguntei:

     _Onde você arrumou isso?

    Com as mãos trêmulas e com a fala interrompida por soluços, essa pessoa relatou que estava apenas praticando sua corrida diária. Quando encontrou o objeto, imediatamente se lembrou da época em que seus dias eram os melhores.
     O objeto era uma placa, a qual possuía um aviso muito simples:

"Jesus de ama".

"Jesus chorou".

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