quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

A morte dos sonhos (24/01/2018)

    O passo em falso no concreto da calçada não poderia ser mais inoportuno. Talvez pela quantidade exagerada de álcool em seu sangue, o equilíbrio inegável daquele que sóbrio mantinha uma postura impecável tornara-se tragicamente ridículo. Os tropeços no asfalto úmido pela geada da noite urbana - ácida como sempre -, não facilitavam para a sua redenção e descanso após uma longa saída com colegas de trabalho.
    Ah, o trabalho. Há nesse mundo algo mais entediante e depressivo do que carregar quilos e mais quilos de pedaços de carne? Sim, e isso seria contabilizar os pedaços de carne (e rezar para que a contagem não resultasse em saldo negativo para a fábrica). A dignidade do trabalho é inegável, entretanto a perspectiva de vida diante do cotidiano do labor pode não ser tão digna. Convenhamos que exista uma certa tensão, pressão, opressão. Para esse mero controlador de estoque, a saída óbvia seria aliviar-se da pressão enquanto seu corpo físico estivesse descansando em um balcão de bar. Apenas o corpo. Pensamentos não são necessários. Pessoas não são necessárias. O necessário é a taça, a gota que escorre pela taça, o whisky que desce como fogo para aquilo que ele costumava chamar de presença física.
    De fato, os colegas estavam ali, porém não bebiam muito. Na perspectiva do contador de carne, todos eles sabiam apenas vomitar enquanto se mantinha lúcido e íntegro na sua ilusão momentânea, afinal logo não se lembraria de nada.  Os vômitos eram mais ou menos assim: "Você precisa procurar ajuda!", ou "Olha para você, Sereno, todo acabado.", ou "Pare por hoje, você já bebeu demais!". Para ele, cada uma dessas frases fediam, deixavam marcas pelo chão e, de alguma forma, o deixavam mais triste.
    Inúmeras vezes precisou ser levado pelos ombros de alguém até aquele apartamento de solteiro em uma área pouco apreciada pelas pessoas daquela cidade. Nunca considerou como uma moradia, pois ninguém o visitava nos finais de semana, ninguém ligava em seu telefone para marcar um encontro casual, ninguém para dizer "Seja bem-vindo!". Apenas um lugar.
    As explicações para a sua queda variam. Primeiro, a inevitável demissão. Mas não pense que a justa causa seria a dependência da garrafa de bebida, afinal um funcionário que não almeja o crescimento da indústria deve ser cortado o mais rápido possível.
    Segundo, a solidão. Terceiro, a falta de senso para tudo. Não poderia evitar, pois até mesmo seu lugar foi tomado. Donos de aluguéis são amáveis até certo ponto, o qual está localizado em dois meses de aluguel atrasado. A ele, restava apenas uma preciosidade.
    Como quem não sabe trocar a pepita de ouro pelo papel-moeda, nosso contador não sabia o que fazer ali, dessa vez sozinho, sem colegas mal-educados vomitadores de falso moralismo - ora, eles também bebiam! -, e sem a luz esquizofrênica do letreiro do bar que já estava farto das confusões e das dívidas galopantes daquele que um dia foi um cliente fiel. Que pena, a preciosidade acabou e se quebrou em vários pedaços de vidro e espirrou seu resto etílico.
    Naquele momento, Sereno apenas contava as frustrações, as perdas, os degraus, os metros, as barras de segurança do viaduto e finalmente, os segundos, até a sua cabeça ser atingida pelo asfalto. Sim, atingido, pois antes do salto, o mundo sempre o atacara, como um mecanismo de descarte daquilo que não é necessário. Adormeceu.

***

    - Que momento difícil, moço!
    Sereno procurou inutilmente pela origem da voz. Com toda certeza alguém naquele lugar falou com ele. Mas, será que onde ele estava, poderia realmente ser chamado de lugar? Era muito claro, porém lâmpada ou vela alguma fornecia a luz. Na verdade, a questão é que não havia escuridão que fizesse necessário o uso de luz produzida.
    A mente de Sereno inundou-se de pensamentos enquanto corria para todos os lados daquele lugar, sem mesmo saber para que direção estava indo. Ele ansiava pela possibilidade de esbarrar ou até mesmo se chocar com a parede, porém depois de um longo tempo - o qual estava levando-o ao desespero -, não encontrou nada além da superfície e da visão branca diante da sua existência que para ele já deveria não apresentar sinal algum. "Eu me matei", pensou ele. O fôlego desgastado e as mãos nos joelhos diziam, dolorosamente, o contrário.
    Seus pensamentos o levaram a uma única dúvida. "Por que estou aqui?".
    - Tenho certeza que já fez essa pergunta antes.
    Dessa vez, Sereno conseguiu identificar o autor da voz. Bastou apenas virar o rosto para trás.
    - Quem é você? Perguntou Sereno. A pessoa por sua vez nada respondeu.
    Aquela pessoa, sentada sobre uma pequena cômoda (nada mais que 50 com de altura, talvez 40 cm), teve que sair completamente de cima do móvel para conseguir encostar seus pequenos pés no chão alvo. A cabeça coberta pelo cabelo castanto-escuro, rostinho de bebê, corpo pequeno, moleton e pés descalços. Sereno pensou: "E só um moleque".
    -Realmente, sou apenas um menino. Disse o moleque.
    A essa altura, Sereno percebeu que seria melhor se expressar mais com palavras do que com pensamentos, pois até o momento o garoto apenas os lera. A confusão na expressão do contador era tão evidente que não deu muita atenção à habilidade incomum daquele ser pequeno e desconhecido.
    - Vamos poupar as apresentações. Quero que você pegue o objeto da cômoda atrás de mim. Logo você vai precisar dele. Não tenho muito tempo até eu conseguir vê-la de novo. Adeus.
    Essa foi a fala solitária do garoto. Antes que Sereno pudesse se dar conta, aquela estranha presença havia desaparecido, deixando apenas aquela cômoda com duas gavetas. A madeira polida e os entalhes não deixavam dúvidas da antiguidade e do cuidado que alguém tem para com aquele pequeno móvel.
    Sereno sentiu uma pontada em sua mão. Mas nada que ferisse, apenas uma folha de grama. Logo, o local onde estava sentado gradativamente era coberto de grama, partindo da silhueta de suas pernas até se expandir para o infinito daquele branco. Graças ao verde vivo da relva, Sereno já podia identificar a linha do horizonte, do qual um céu de azul intenso cobria o espaço acima da sua cabeça. Tão azul, tão exuberante, que para os olhos do pobre contador, poderia ser nocivo. Sabe-se que o céu é azul graças ao sol, porém apesar da ausência de nuvens, Sereno não encontrou vestígio algum do astro.
    Uma árvore, de caule robusto, enraizada na terra como se usasse toda energia daquele ambiente, fez-se perceptível. A distância dele para a árvore não era tão grande, pois ao chegar mais perto ainda podia avistar a cômoda de madeira. A vitalidade da árvore era tão intensa que era impossível não querer tocá-la. Ele então, tocou.
    Os dedos frios de Sereno encostaram na madeira sólida da árvore. Como uma maldição, folha por folha encontrou a relva, a mesma relva que até poucos segundos era verde vivo, agora não passava de um vasto campo ressecado pelo tempo.
    Sereno, apesar da brusca mudança do ambiente, não se sentia culpado. Algo além dele causou aquilo. Rodeou a árvore, agora apenas galhos contorcidos, e encontrou uma mulher belíssima. Os joelhos encostando na testa, como uma criança triste que fecha o semblante e derrama lágrimas em silêncio no cantinho do quarto. Ao perceber a presença do homem, ela levantou o rosto e o encarou por alguns instantes. O silêncio foi interrompido:
    - Não entendo. Fiz tudo tão certo. Fui à escola, depois universidade, depois um emprego estável. Construí uma família, casei com um bom homem. Não é justo.
    Sereno disse:
    - Não sei se estou em posição de explicar, até porque eu nem mesmo sei o que está acontecendo comigo.
    - Tudo bem. Acho que entendi tudo.
    Enquanto a mulher falava, seus fios de cabelo, castanhos como o mais puro mogno, caíam na grama ressecada, um a um.
    - Vejo que você não está bem. Disse Sereno, um pouco chocado.
   - Meu Deus! Vou sentir tanta falta dele, das palavras dele, do corpo pequeno e delicado dele. Ah, meu filhinho.
    Sereno, em uma atitude incomum até aquele momento de sua vida, segurou as mãos da mulher, agora sem o longo cabelo castanho, sem a vitalidade feminina que um dia, muito antes disso tudo acontecer, teve o privilégio de usufruir. Ele olhou bem fundo nos olhos dela e pôde ver a luz desaparecendo dos seus olhos.
    Em um lapso de memória, lembrou das palavras do garoto que encontrara mais cedo: "Pegue o objeto da cômoda". Sereno não sabia exatamente o que estava fazendo ali, em um lugar que mudava de ambientação de maneira surreal, ajudando uma mulher desenganada e pronta para perder a vida a qualquer momento.
    - Não desista ainda! Vou pegar uma coisa e já volto!
    Com certo desespero, Sereno correu de encontro ao móvel de madeira e abriu a primeira gaveta o mais rápido que pôde. Encontrou um papel e apenas uma frase escrita. A caligrafia infantil o fez pensar na possibilidade do garoto ter escrito. Apesar disso, estava legível:
    "Encoste a mão na região do pâncreas". Estava escrito.
    Sereno não entendeu de imediato. Procurou algo na segunda gaveta e não encontrou mais nada. Sem pensar muito, correu de volta para a mulher. A cabeça baixa, porém a fraca respiração aliviou em partes a mente do contador. Agora, Sereno estava com medo. O que aconteceria se ele encostasse a mão na barriga daquela mulher? Pensamentos assim vieram com toda força, afinal aquele lugar estava completamente desconexo com a realidade que ele conhecia. Tudo ali parecia seguir o estado daquela mulher. À cada inspiração e expiração, a grama ficava cada vez mais ressecada, a árvore cada vez menos vital e resistente. Os galhos também começaram a cair.
    Até que um vento forte começou a ameaçar aqueles dois. Sereno sentiu, em algum lugar do seu coração, que estava perdendo um tempo precioso. Não pensou mais, apenas tocou a mulher na região indicada pelo escrito.
    O vento parou subitamente. Tudo parou. As folhas flutuavam, os galhos em movimentos caóticos também pararam. Não preciso dizer que Sereno ficou ainda mais apreensivo, apesar da sua atitude ter sido a mais sincera de toda a sua vida. Em choque, paralisado pelo silêncio absoluto daquele lugar, lentamente tirou sua mão do corpo daquela mulher.
    Apenas uma coisa moveu-se em meio àquele silêncio. Uma gota escorria pelo rosto da mulher. Sereno identificou uma, duas, três... Ela chorou. Chorou intensamente, de forma desesperada. As lágrimas umedeceram aqueles olhos quase sem vida, e logo o brilho voltou ao seu semblante. A relva pouco a pouco voltava a ser verde vivo. A árvore quase derrubou ambos ao voltar a ser a madeira forte e viva que era. As folhas voltaram, o céu intenso cobria o infinito como um grande lençol.
    A mulher secou as lágrimas, olhou para Sereno. Ela o abraçou. Ele pôde sentir o calor real do seu abraço, muito real. Ela retornou aquele olhar profundo, a voz embargada, e disse:
    - Obrigado!
    Ela se levantou, fitou o horizonte e se pôs a correr. Um menino de moleton e descalço correu de encontro a ela. Antes que Sereno pudesse assistir àquele momento, tudo voltou a ser branco. Ele permaneceu lá, sentado. Uma forte dor de cabeça e logo depois tudo tornou-se escuro.

***

    As notícias do dia seguinte anunciaram um suicídio em um viaduto acima de uma rodovia bastante movimentada. A causa da morte foi traumatismo craniano, precedido de um salto de cabeça. De acordo com o relatório de primeiros-socorros, era inacreditável que o corpo ainda apresentava sinais de vida mesmo após o choque com o asfalto, porém em alguns minutos de esforços inúteis, mas bem intencionados, o homem não resistiu.
    No mesmo dia, uma mulher adulta recebia alta de um hospital após uma cura milagrosa de um câncer de pâncreas. Ela segurava a mão do seu filho.
    Naqueles últimos segundos de vida, em meio ao caos de sua mente tão atribulada, Sereno tinha feito o seu último lamento: "Eu queria ter sido útil, ao menos uma vez na vida".

domingo, 22 de maio de 2016

Perto (22/05/2016)












Perto do coração
Tão nocivo, tão arriscado
Pode ser impensado,
Pode ser proposital,
Pode ser instatâneo, impulsivo
Pode ser forçado,
Pode ser estranho, desconfortável
Pode ser macio, confortável
Pode ser bonito
Bonito de ser ver, bonito de sentir.

Perto da alma
Mais do que a sensação
Mais do que o momento
Mais do que o concreto
Mais do que desejo
Mais do que timidez, retraimento
É quebra, é aceitação
É entrega
Mais do que humilhação
É apenas humildade.

Perto das costas
Perto das costelas
Um arco de consentimento
Um arco de agradecimento
Um arco que perfuma
Perfume que não se vende
Perfume que não perfuma
Perfume que não existe
Não existe em qualquer lugar.

É perto,
Mas pode ser longe
Quando está longe,
Deixa saudade
Pode ser próximo,
Mas não pode ser distante.


Feliz dia do abraço.

domingo, 15 de maio de 2016

Como matar um dragão? (15/05/2016)

   Tão pesada quanto a gravidade, a respiração daquele que possui a arma letal não deixa escapar o receio de avançar para o local mais próximo do inimigo. Para disfarçar suas intenções assassinas, alguma superfície úmida entre tantas que compõem o cenário sombrio, que logo se tornaria palco de um espetáculo de violência gratuita.
   O eco dos passos não era o suficiente para despertar aquele ser fantástico do seu sono profundo. A arma, guardada e segura das impurezas daquele lugar, não via a hora de penetrar a carne, seja de quem fosse a carne. A arma clama por sangue e pelo cheiro que o mesmo apresenta após espirrar pelo ambiente. Ferro puro.
   Por mais maligno que fosse, acredito que ninguém desejaria tal fim para si ou para outrem. O som inconfundível da lâmina quando perfura e dilacera a carne, com toda violência, para matar e causar dor. As válvulas perderam o rumo e logo deixaram o sangue jorrar, como mangueiras em máxima pressão.
   A vítima não abriu os olhos enquanto o seu inimigo saía de suas entranhas, fazendo cortes em sua pele para poder abrir caminho. Estava feito. Aquele que carrega a arma finalmente viu a luz e seguiu o seu caminho. O dragão não morreu, mas ainda observa o seu sangue jorrar.  

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Pericárdio (22/02/2016)

     Não, esse não é um ensaio sobre a estrutura muscular do aparelho cardiovascular. Poderia ser, na verdade, até porque é sempre bom aprimorar o conhecimento acerca da nossa própria existência física, mas vou lhes poupar disso e me poupar também. Trata-se de uma narrativa complicadíssima de ser fazer, daquelas que só não são impossíveis de escrever devido à probabilidade de acontecimento, que é absurdamente mínima. A descrição que se segue não é tão palpável quanto o sangue transportado em nossas válvulas, é algo repugnante, doloroso e perceptível apenas uma única vez.
     Tudo se inicia com um puxão do ar pelas narinas. O ar que entra não se cria, se transforma. As minúsculas partículas logo se apropriam do ambiente escuro, viscoso e sanguinolento, seguindo caminho pelas hemoglobinas de sempre. O emaranhado de tubos e articulações não consegue manter as partículas inaladas por muito tempo e a tendência é dispersar para os tubos menores, os tais capilares (apesar de não estarem acima de nossas cabeças). Houve uma época em que consideravam esses tubos como vazios, possuindo apenas ar nesses tubos, o que era uma conclusão até certo ponto sensata e inevitavelmente lógica, afinal todos tinham narizes. Hoje sabemos que o ar deixa de ser transportado quando chega aos nossos pulmões.
       Assim como os tubos que se ramificam, os pulmões são grandes caixas cheias de ramificações, as quais nos permitem abrir a boca para blasfemar e desrespeitar. E pensar que as atrocidades que proferimos são originadas de um buraco "alienígena" no meio da nossa garganta.
      As partículas vão até o mais profundo dessas ramificações que se escondem nos pulmões, vão mesmo. De lá, vão para o resto do corpo, ou se você preferir, para as células. Sim, tudo isso em menos de um segundo. Legal, né?
     O mais interessante disso tudo é que o vermelho se torna escuro, muito escuro. É aquele ditado: tudo que vai, volta. No caso do ar que respiramos, tudo que vai no vermelho, volta no escuro. Nossas células não perdoam, logo expelem as partículas responsáveis pelo enegrecimento, a não ser que queiramos a sua permanência. A maneira mais fácil e mais estúpida de brigar com as próprias células é posicionando um cilindro de papel com mais de 4.700 substâncias advertidas pelo ministério da saúde. Dessa forma, as partículas permanecem, ocupam espaço, fazem a festa.
     Mas nem tudo está perdido. Para ser bem sincero, cada segundo de nossas vidas é dedicado a manter esse ciclo em sua melhor performance. Quem é que não leva um susto quando escuta a frase: "sua pressão está baixa"? É isso, admita. Quando você não assume essa responsabilidade, nem é preciso te arrancar as palavras, basta confirmar sua negligência com uma lata, garrafa ou copo preenchido por soluções à base de etanol. Sim, estou sabendo, está ferrado!
    Para o inferno aquela balela de que "cada pessoa tem o seu ritmo"! Falam disso como se fosse inato, como se em momento algum não houvesse o fator "decisão pessoal". Sempre há, entretanto somos lerdos demais para identificar quando isso acontece. Isso é muito sério, você não imagina.
   A maneira como você age e reage. A forma como você expressa as suas verdades passageiras. O sofrimento com o qual você vive por insistir em alimentar uma ilusão. Incrivelmente, todas essas coisas são inevitáveis, afinal são elas que dão sentido ao que chamamos de "vida".
     Consegue, meu caro amigo, perceber a forma como a vida se manifesta dentro do seu corpo? Se sim, me diga, não é incrível? Esqueça ciência, esqueça religião por apenas um momento. Consegue ouvir a partícula tocando o alvéolo, a última etapa antes de fazer parte da sua vida, por mais descartável que essa partícula possa ser?
      Eu sei, não consegue, ninguém consegue. Vou me confessar a você, tudo que eu disse aqui não passa de conhecimento livresco, não consigo ver ou ouvir a hemoglobina encher ou se esvaziar por osmose ou difusão facilitada. Porém, terei que assumir uma postura "clichê": Eu posso sentir!
     Basta fechar os olhos. Tape os seus ouvidos por algum tempo. Não vai demorar até o som aparecer. Apesar dos seus ouvidos internos estarem cheios de um líquido, você conseguirá identificar um ritmo, ou melhor, um instrumento musical que esteve e sempre estará dentro de você, e junto a você ele apodrecerá e será consumido por essa mesma terra que você pouco se preocupa em conhecer. Esse ritmo, cada vez mais lento, às vezes acelera, mas é recomendável que você tire os pés da tábua quando perceber que não encontra mais os freios. Vai bater.
     Esse instrumento é você. A partir do seu cuidado, da sua prudência, da sua consciência, esse instrumento é afinado dia após dia. Se você molhar, sujar, quebrar ou simplesmente se esquecer do instrumento, obviamente ele não emitirá mais as notas musicais. Assim como em um instrumento de cordas, o seu amor próprio é o seu diapasão. Procure a sincronia perfeita. Se não encontrar, peça a alguém para te ajudar, afinal um dueto é sempre mais impactante do que um trabalho solo. Não caia no erro de achar que possui talento suficiente para seguir sozinho.

    Acha que estou viajando? Não me importo, mas se quiser confirmar, ponha sua mão no lado esquerdo do peito. Sinta o pericárdio provocar suas mãos duvidosas e incrédulas. Sinta a peça principal do seu instrumento reger a sinfonia chamada "corpo humano".

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Sequoia (19/02/2016)

     A estrutura de uma folha é um relógio natural. De tanto produzir o seu próprio alimento, parece que a folha é atingida por um profundo cansaço. Enquanto há luz, há trabalho. A folha é quase um ser humano moderno, com exceção daqueles que trocam o dia pela noite para garantirem o seu sustento. O cansaço da folha é expresso pela cor que ela recebe a partir dos pincéis do tempo. Cada dia é uma pincelada, um retoque que, no fim, acaba por deixá-la cair de sua estrutura principal.
     A folha, já amarelada, quase amarronzada, não permite que alguém a veja cair. Sua queda se dá de madrugada, porém nem mesmo os animais de hábitos noturnos percebem ela cair, afinal é silencioso, leve, natural ao extremo. O dia seguinte começa com a névoa espessa. Aos poucos a névoa se dispersa e as folhas caídas são reveladas. Enquanto estavam na árvore elas não eram tão unidas. Cada uma no seu espaço, transformando glicose, ramificadas de maneira segregada. Parece loucura, mas a copa de uma árvore é mais desunida do que podemos perceber. No chão, todas secas, não precisam mais se preocuparem em qual posição a captação de luz é melhor, elas apenas estão ali, imóveis, dependentes da ação do vento, destinadas a compor os sedimentos que receberão as folhas futuras. Sim, toda folha é uma matriarca.
     A vida não tem limites. Enquanto o ciclo se mantém pela eternidade, sempre haverá uma existência que não aceita essa realidade. A vontade de fazer a diferença, de propor uma nova perspectiva para a coletividade alienada. Normalmente são mentes jovens que pensam dessa forma. Mentes frescas, saudáveis, receptivas, mas sobretudo inexperientes. A tendência é desanimar, mudar de ideia de uma hora para outra. Apesar da volatilidade, é extremamente normal.
     Mas a folha seca quebrou. E foi por causa de passos calmos, muito calmos. Pisada por pisada, folha quebrada por folha quebrada. Logo o som dos galhos se partindo juntou-se à sinfonia da floresta de sequóias. Uma sinfonia paradoxal, dotada de silêncio, mas ao mesmo tempo barulhenta, ao ponto de não permitir que o grito mais alto se espalhasse pelo seu território. Qualquer ser humano que se atrevesse a entrar no seu santuário, deveria curvar-se devido à presença dos mais velhos. Tão velhos, tão resistentes, tão imponentes. Assim são as sequoias.
    O quebrador de folhas não se curvou, apenas continuou caminhando, porém sem intenção alguma, apenas caminhava por caminhar. O atrevimento era tal que nem mesmo se importou em admirar o santuário. Herege!
     Para se ter uma ideia da autoridade das anciãs, nem mesmo o sol se atreve a atacá-las com seus raios escaldantes, pois ele abranda e acaricia suas estruturas de tal forma que em seu interior não há ambiente mais fresco. As garras das raízes são os bancos, o solo coberto de folhagens é o pátio, os troncos basilares são os edifícios e o resto é calmaria e silêncio. A arquitetura que o homem sempre desejou, tentou executar e hoje existe de forma artificial. Ambiente parecido nas cidades elitizadas são as praças de condomínios verticais, e em razoável silêncio diurno.
     O herege cansou. Ao sentar em uma raiz, sentiu o tecido de sua calça moleton umedecer. Nem mesmo as sequóias escapam do orvalho matinal. Mas não se importou, apenas flexionou os joelhos, apoiou os cotovelos em seus fêmures e, melancolicamente, descansou a cabeça na palma de suas mãos. Logo, o sonífero da natureza alcançou o mais profundo do seu consciente, mais precisamente no meio de sua cabeça. Apesar de ser o começo do dia e de ter acabado de despertar, o sono profundo lhe veio novamente. As pálpebras estavam para se juntar e a paisagem se esconderia ao ser minimizada pela escuridão ocular. Mas não.
     Um toque leve, suave e sem pretensões. De súubito a sua alma volta ao bucolismo supremo daquele lugar sagrado. O herege procura atordoado a origem daquele toque, mas essa se torna uma tarefa difícil. Decide se levantar daquela raiz e retomar a caminhada para encontrar o que acreditava ter perdido. Não tinha sentido gritar algo naquela solidão, até porque é muito difícil chamar por algo que nem sequer se sabe o nome. Mais folhas quebradas, mais galhos se partindo, dessa vez com mais frequência e caracterizando o desespero do caminhar humano. Onde estaria aquele toque?
        Era apenas uma cegueira, uma ingenuidade diante do óbvio. O toque sempre estivera ali, bem atrás do seu sono, o responsável pela dormência profunda.
     Para confirmar sua inocência, outro toque. O movimento súbito do herege à procura daquele ser brincalhão passou a ser cansativo, os olhos não queriam mais tentar acompanhar o que parecia ser impossível de enxergar naquelas circunstâncias, apesar de ser dia, um dia muito bonito por sinal. O herege pensou em desistir, o que logo aconteceu. Ainda em pé, ofegante e frustrado, aquele indivíduo insubmisso não sentia mais vontade em perseguir ou compreender suas incertezas.
      Porém era muito óbvio. Cercado por todos os lados por incontáveis sequóias, o herege não se deu conta de que a brincadeira, ou melhor, o brinquedo das anciãs era ele mesmo. Como uma bola em plena partida de futebol, seu pequeno corpo não sabia para onde ir, apenas para qual raiz se direcionaria, trocando de sequóia em sequóia. Se era um ser humano, difícil concluir com certeza, mas se fosse, com toda certeza não gosta de ver o herege em estado de calma, afinal nem mesmo permitiu um momento de sono.

A sequóia olhou para o herege, o herege olhou para a sequoia. Eles se beijaram.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

O aviso da estrada (13/02/2016)

   
     Eu sei, pode parecer perigoso, mas assim aconteceu... Não foi nada demais, apenas um impulso, uma busca por aventura, adrenalina e todas as outras justificativas. Não se pode evitar quando o desafio quer ser maior que você, definitivamente não. Mas tudo bem, tudo ficará bem, basta ter paciência e confiar no aviso da estrada.
     Nesse lugar escuro, silencioso, ermo e perigoso, me ponho a pensar no dia em que tudo começou a mudar. O engraçado é que não era nada demais, apenas um pedaço de madeira preso a um tronco de árvore avulso no meio de uma rodovia. Se não fosse pela atitude dos nossos representantes em instalarem ciclovias entre essas rodovias, jamais teria sido possível encontrar esse aviso. Afinal, por que não deixar uma pista solitária como essa apenas para os carros que não querem compromisso algum com este lugar, apenas passar e ir embora? Bastavam os humanos no conforto dos seus bancos estofados e na atenção mínima em seus volantes, mas alguém tinha que pensar naqueles humanos que usam rodas finas, banquinho, capacete, roupa de lycra e guidão. Completamente desnecessário!
    Esses governantes deveria entender, de uma vez por todas, que essas mini-pistas para ciclistas, ou melhor, esses seres alternativos, estão condenados a serem ocupadas por não-ciclistas, ou melhor, pelos "cooperistas". Sim, exatamente isso que você pensou, por aqueles que praticam cooper como exercício físico. Eu sou um cooperista.
     Não é a minha intenção dizer que eu sou o saudável, uma pessoa que obrigatoriamente deve estar de bem com a vida, nada disso. Eu sou normal. Só acho que, para continuar tendo essa vida normal, que tanto amo, não faz mal cuidar da saúde e tentar ficar de bem com a vida, não é?
     Todos os dias eu acordo, tomo meu café da manhã após aquela escovada nos dentes, ponho meu tênis próprio para corrida, amortecido, e faço o caminho da ciclovia que tiveram a bondade de construir. Assim como muitas práticas diárias, o cooper começou a fazer parte do meu dia-a-dia, era quase obrigatório.         Não, é obrigatório! Mas não forço muito, sempre respeito as minhas limitações. Acontece que, no dia em que tudo mudou, todo estava diferente. Eu tinha acabado de acordar e...
     Eu tinha acabado de acordar e já estava estressado. É, a minha vida nunca foi fácil, basta você passar um dia inteiro comigo para entender o que estou dizendo. Desde cedo eu tive que trabalhar para ajudar meu pai e minha mãe, que sofriam muito para garantir o nosso pão de cada dia.
     As pessoas costumam associar a pobreza apenas com a falta de estudo. Quero pedir a estas pessoas que revisem seus conceitos. Primeiro, imagine uma cidade que não possui: saneamento básico, um sistema de saúde eficaz, segurança adequada, pavimentação e mais de uma escola. Agora eu te pergunto, como seria possível acreditar em uma vida melhor sob essas condições? Se quiséssemos algo melhor, não seria naquele lugar, por isso arrumamos nossos trapos e viemos para cá, assim como muitos, para tentarmos um novo futuro.
     Bem, os anos se passaram, me tornei adulto, meus pais faleceram e os meus irmãos e irmãs estão todos casados, enrolados. Mas eu não.
     Assim que colocamos o pé nessa cidade, eu pensei: "a minha vida tem que mudar, tem que ser melhor". Pensei, mas não cheguei a compartilhar esse pensamento com ninguém. Ainda novo, recém-chegado, fui matriculado em uma escola pública próximo à casa que nos acolheu sob a cobrança de aluguel equivalente a metade de um salário mínimo. Acordava cedinho, tomava o meu café, tomava os cadernos debaixo do braço e partia.
      Nessa luta eu jamais voltei atrás. A vida era difícil, mas isso nunca me impediu de tirar notas boas. Me esforcei ao máximo para chegar onde estou.
Mas hoje estou estressado. A tarefa que me é obrigatória tem que ser realizada muito cedo, quase no fim da madrugada e já não basta ter que chegar em casa, todos os dias, à meia noite. Não dormi direito, cansado demais. Enfim, levantei, tomei um café dormido e fui embora. Pense no frio que me atacou assim que abri a janela! Quase congelei, pelo menos os meus dedos quase congelaram. A sorte é que eu estava agasalhado e com calça jeans.
     Meu destino naquela manhã era um lugar vazio. Devo esclarecer que o meu trabalho não é tão valorizado, porém não consigo reclamar dele, realmente gosto do que faço. Esse lugar não era tão longe da minha casa, mas acabei falando em voz alta:

     _Quer saber? Eu vou caminhando, porque só assim eu destravo minhas pernas!

     O caminho não era tão perigoso. Para chegar, bastava sair do bloco residencial e seguir pela calçada da rodovia. Enquanto caminho, sempre presto atenção nos carros, mas isso causa certa agonia. Não suporto a ideia de que o carro possa substituir pernas saudáveis, e na medida em que os anos passam, mais carros são vendidos e mais carros circulam. Então eu pergunto: "será que estamos nos tornando preguiçosos?". Enfim, apesar de sentir essa agonia, não me prendo muito a isso.
     Pronto, cheguei. Com a mochila em mãos, abri o zíper e retirei o material necessário. Sobre uma placa de madeira, com algumas pinceladas escrevi a frase que me mandaram registrar ali. Com a tinta parcialmente seca (sim, ela seca muito rápido!), ergui a placa em um tronco de árvore, apanhei o martelo e tirei um prego do bolso. Martelei algumas vezes até a placa fixar.
    Bem, o trabalho estava feito. Hora de voltar para o local onde realizo as atividades do trabalho. Ao chegar, uma pessoa estava desesperada, em lágrimas, com um objeto bastante familiar em mãos.
     Na intenção de ajudar, aconselhei a essa pessoa:

     _Se acalme, por favor. Aqui é uma igreja, comporte-se...
     
     A pessoa me retornou o olhar, inchado e úmido. Respondeu:

     _Mas eu recebi a mensagem! Por favor, tente me entender...

     Não quis saber muito, logo perguntei que objeto era aquele. Não acreditei no que vi. Perguntei:

     _Onde você arrumou isso?

    Com as mãos trêmulas e com a fala interrompida por soluços, essa pessoa relatou que estava apenas praticando sua corrida diária. Quando encontrou o objeto, imediatamente se lembrou da época em que seus dias eram os melhores.
     O objeto era uma placa, a qual possuía um aviso muito simples:

"Jesus de ama".

"Jesus chorou".

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Casinha na relva (12/02/2016)

     É incrível como a cor verde é tão desprezada pela humanidade. Realmente não entendo. Uma cor tão bonita, tão elegante, tão calma e gostosa de se ver, de usar. Até entre as cores, formalmente falando, o verde é considerado uma cor fria, secundária e não possui os atributos vivos do vermelho, do amarelo e do azul, ou melhor, do sangue, do ouro e dos olhos de uma dama caucasiana.
     Vocês já repararam que nas obras realistas, tais como as pinturas de Coubert, o verde é tão pouco utilizado? Exemplo disso está na obra "Mulheres peneirando trigo". Vê-se duas mulheres, uma mais simples que a outra no que diz respeito à vestimenta e até mesmo na maneira em que são representadas. Nota-se o esforço braçal exigido para que aqueles grãos sejam peneirados da maneira mais refinada e própria para consumo, o seu pão de cada dia. A palha espalhada pelo chão dá a entender que as personagens estão numa espécie de celeiro, a casa dos animais de tração. Agora pensem comigo, qual a utilidade de um "animal de tração"? A resposta mais óbvia seria o transporte de carga, incluindo pessoas, outros animais, alimentos... sim, alimentos. O que essas mulheres estão fazendo não se diferencia muito do que os animais de carga fazem, afinal o alimento que ganham no fim do seu esforço físico são praticamente as sobras do que elas conseguem produzir. Aquele trigo não é apenas para consumo próprio. Como seria se cada pessoa que estivesse interessada em comer o alimento que produz do próprio esforço assim o fizesse... essas mulheres, além de trabalhadoras, são mães, irmãs, esposas, enfim, são mulheres.
     Um detalhe importante: onde está o verde nessa pintura? E o mais intrigante, porque o vermelho e o amarelo estão tão presentes nessa pintura, mesmo sendo cores vivas, chamativas? Realmente isso nos causa nós na cabeça, por isso amo tanto a arte. Claro que, nesse mundo tão grande, tão "sem porteira" e, paradoxalmente, tão pequeno, não devemos falar de cores apenas no tema restrito da arte, isso inclui todos os seus tipos, desde a rupestre ao cinema 4, 5, 6, 7, 8, infinitos "Ds". Agora mesmo, enquanto escrevo esse texto, miro uma garrafa cheia de água com a pigmentação verde no plástico. Uma regra: quer verde? Vá procurar!
     Melhor, se você quiser verde, vá viver o verde. Mas isso é tão complicado hoje em dia. Não é de hoje esse papo de que a humanidade se desvencilhou do verde na medida em que procurou utilizar o verde de todas as formas possíveis... complexo, não? Entretanto, mesmo nesse mundo tão cinza, melhor, tão metálico, é possível viver o verde.
     Para vivê-lo, basta procurar um solo verde, afinal uma casa precisa de um solo para se assentar. Quando encontrar, repare que o solo se prepara para te receber, mesmo ele não tendo a mínima ideia do que você fará com ele. No seu primeiro passo, perceba o movimento que os dedos do solo faz para abraçar a sola dos seus pés. Cada passo que você der confirmará a complacência desse solo quanto à sua existência. Você pode pisar da maneira que você quiser: com tênis, sem tênis, com chinelo de dedo, sem chinelo de dedo, com sapatilha, sem sapatilha, com botas, sem botas. Enfim, pise e caminhe, levanta-te e anda! Viva!
     Te parece estranho? Exagerado? Você não se sente à vontade em um lugar assim? Bom, acostume-se, afinal esse lugar será a sua futura casa. Caso ainda se sinta desconfortável, um exercício: deite-se nesse solo, olhe para o céu, o azul incompreensível, e aos poucos feche suas pálpebras. Na escuridão iluminada, abra os seus ouvidos assim com as flores desabrocham. Não abra sua boca, apenas ouça, alguém quer falar com você.
     A voz que vem não consiste em fonemas, e pode ser que não tenha sentido. Mas mesmo assim, escute. Você sentirá alguém tocando em sua pele. Não são as mãos humanas, e sim algo infinitamente superior, por isso respeite, a sua melhor reverência é nessa posição de escuta. A sensação é parecida com um mergulho em águas límpidas, a diferença é que você consegue respirar. Aos poucos você começará a entender o que aquela voz queria te dizer. O entendimento vem pelo cheiro, pela sensação do toque, pela umidade que aos poucos se mistura ao cheiro e traz uma sensação completamente diferente. Sim, a voz era do verde.
Não há nada mais acolhedor do que essa experiência. O acolhimento evolui e toma forma física. Do solo verde sobem as estacas, as vigas, os pilares. A geometria formada é simplesmente perfeita. O vazio dos pilares é preenchido com barro, madeira, tijolos, concreto, aço, MDF. Você está entre esses espaços preenchidos, então quer ver o verde que lhe foi tapado.
     Uma abertura é feita à sua frente. Mas você quer apenas essa abertura à sua frente, não acima da sua cabeça. As madeiras sobem e formam um triângulo, por um motivo bem simples: você não quer se molhar.
     Você quer sair dessa sombra, dessa penumbra, e uma abertura é feita na sua frente, igualzinha ao seu tamanho. Com o tempo ela se torna maior, de acordo com o que vai entrar e querer sair depois. Assim, você sai e vê, em pé sobre aquele solo verde que te acolheu, a obra que você criou. Seja orgulhoso!

     Acontece que você que você quer dividir isso com alguém. Você se sente só. Não se preocupe, alguém veio. Pegue sua peneira. Peça para essa outra pessoa apanhar a peneira dela também. O trigo vos espera.